Como a Europa superou a dependencia do gas russo
Europa supera crise do gás russo com medidas emergenciais, mas enfrenta desafios para o futuro. Leia mais e saiba como o bloco busca se tornar líder em energia verde e competitiva.
Localizada na Alemanha e banhada pelo Mar do Norte, a cidade de Wilhelmshaven sempre foi um local estratégico. Iniciou-se como um porto para piratas no século XIV e, mais tarde, tornou-se uma importante base das marinhas mercante e de guerra. Em 2022, teve um novo papel: tornou-se o lar do primeiro terminal flutuante de gás da Alemanha, o que fez com que a cidade se convertesse em uma artéria vital para o fornecimento do fóssil não só para seu país como também para toda a Europa. Isso ocorreu em um momento em que o continente estava perigosamente próximo do esgotamento.
A construção da infraestrutura deu-se em apenas 10 meses e, durante este período, a Rússia vinha reduzindo o fornecimento de gás natural para a União Europeia como forma de retaliação ao apoio do bloco à Ucrânia. O complexo de Wilhelmshaven recebe o gás natural na sua forma líquida, faz a regaseificação e depois o envia para a extensa rede de gasodutos da Europa continental.
Um único navio com uma remessa completa tem gás suficiente para abastecer 90.000 residências por um ano. Apropriadamente, o navio em questão, propriedade da norueguesa Höegh LNG, chama-se Esperanza (esperança, em espanhol). De acordo com a Uniper, a gigante energética alemã que opera o terminal, somente no ano de 2023, o Esperanza forneceu cerca de 6% do consumo total de gás da Alemanha.
“Com a expansão dessa capacidade de importação, uma quantidade significativa de gás poderia ser desviada da Ásia no curto prazo para ser trazida para a Europa, por isso foi uma parte realmente importante para lidar com a crise”, diz o presidente-executivo da Uniper, Michael Lewis.
Wilhelmshaven foi a primeira unidade flutuante de armazenamento e regaseificação (FSRU, em inglês) a entrar em operação durante a crise, mas há outras em obras. Desde que a Rússia começou a cortar o fornecimento de gasodutos para a Europa em 2021, pelo menos 17 terminais de gás natural liquefeito (LNG, em inglês) foram planejados ou estão em construção.
O LNG recebido por estas FSRUs ajudou a substituir praticamente todo (90%) o fornecimento de gás que vinha da Rússia através de gasodutos, ajudando assim a reduzir os preços do hidrocarboneto de máximas históricas (300 euros por MWh) em agosto de 2022 para os níveis anteriores à invasão russa na Ucrânia (30 euros por MWh).
Assim, devido a intervenções sem precedentes na política energética e uma pitada de sorte, a crise energética que os europeus temiam no início do inverno de 2022 não se concretizou. Em termos de níveis de armazenamento e de preços, “estamos numa posição muito melhor agora do que eu teria imaginado há três anos”, afirma Anne-Sophie Corbeau, pesquisadora do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia.
Mas isso não significa que a Europa esteja em um céu de brigadeiro. A resposta de curto prazo à crise pode ter criado problemas maiores para o bloco no futuro, incluindo uma forte dependência de mercados de LNG historicamente voláteis, com implicações tanto para a competitividade industrial como para a transição verde. O Esperanza, por exemplo, tem contratado para funcionar em Wilhelmshaven durante os próximos dez anos – muito mais tempo do que os grupos ambientalistas esperavam que a transição energética acontecesse.
De acordo com Alexandru Mustață, ativista da ONG Beyond Fossil Fuels, será difícil cumprir os compromissos firmados nos acordos climáticos de Paris (2015) quando há um “grande número de centrais elétricas a gás que não têm data de aposentadoria”. “Estamos num momento em que não há muita clareza pela Europa”, completou.
O passo-a-passo
Quatro dias após Vladimir Putin ter lançado a sua invasão em grande escala na Ucrânia, os ministros da energia da União Europeia (UE) reuniram-se para discutir os danos que a Rússia infligiu às infraestruturas energéticas ucranianas e o risco para o abastecimento energético de seus respectivos países. Vale lembrar que grande parte do gás russo que chegava à Europa passava pelo território ucraniano.
O Financial Times narra um episódio envolvendo um alto funcionário da UE. “Era uma questão de saber se poderíamos manter as luzes acesas. Poderíamos aquecer as casas? Poderíamos manter a indústria funcionando?” narra um dos presentes na Comissão Europeia em Bruxelas naqueles dias tensos de fevereiro de 2022. Mais em Financial Times.
O fornecimento de gás era a maior preocupação. Além de aquecer milhões de casas, o gás natural também é fundamental para os setores de fertilizantes e petroquímicos, e em indústrias pesadas como a siderúrgica. Seu preço é um fator determinante no quanto as pessoas pagam em suas contas de luz.
Cerca de 90% do consumo de gás da UE vem das importações, seja através de gasodutos ou de remessas de LNG (que navios como o Esperanza trazem). Antes da guerra, o gás russo representava 40% do abastecimento do bloco que vinham através de quatro gasodutos. Mesmo antes do início do conflito, Moscou já tinha começado a explorar essa posição dominante, cortando estrategicamente o fornecimento à UE e estrangulando a quantidade de gás que era armazenada.
Após um inverno frio prolongado, a UE saiu do inverno de 2021 com os níveis de armazenamento de gás mais baixos dos últimos três anos. Devido às preocupações com a escassez de oferta, os preços do gás natural no mercado europeu subiram consideravelmente. Este fenômeno foi considerado como uma tática russa para pressionar Alemanha e Bruxelas a aprovarem a construção do controverso gasoduto Nord Stream 2.
Após o ataque russo em fevereiro de 2022, o país reduziu o fornecimento de gasodutos mais do que nunca, numa tentativa de pressionar os governos a reduzirem o seu apoio a Kiev. Em Agosto daquele ano, o preço do Title Transfer Facility, a referência do gás na Europa, ultrapassou os 340 euros por megawatt-hora, uma máxima histórica. “O verão de 2022 esteve muito próximo de uma tempestade perfeita”, afirma Benjamin Lakatos, CEO da empresa suíça de energia Met Group.
Em 2022 os ministros da energia da UE reuniram-se mais do que o dobro de vezes do que estava programado. “Os ministros da energia firmaram este compromisso pessoal de apoio à Ucrânia”, recorda Kadri Simson, o comissário da energia da UE. “Então, quando eles se reuniam a cada duas semanas, ninguém questionava o motivo.”
Cada reunião tornou-se mais acalorada do que a anterior, diz Simson, à medida que chegavam a acordo sobre as peças finais da legislação de emergência que iam desde esforços voluntários de redução da procura até metas de armazenamento de gás e, finalmente, até um limite máximo de preço do gás altamente contestado que foi assinado em dezembro de 2022. “Cada reunião [ministerial] que se seguiu à anterior acontecia sob maior estresse porque primeiro pensávamos que essa situação passaria mais rápido e depois a dor que os consumidores sentiam foi ficando cada vez maior”, recorda Simson.
No entanto, depois da tempestade veio uma calmaria surpreendente. Os preços do gás natural caíram para os níveis anteriores à crise, com o bloco agora numa posição muito melhor para superar a crise energética.
A sorte
Ao atingir tão rapidamente um estado de relativa estabilidade, a Europa se beneficiou de uma “sorte absolutamente espetacular”, diz Amund Vik, antigo secretário de Estado norueguês da Energia e atualmente conselheiro sênior da consultoria Eurasia Group.
Em primeiro lugar, houve o clima. À medida que a crise se aprofundava em 2022, analistas e comerciantes temiam que um inverno frio esgotasse as reservas de gás do bloco e provocasse uma disparada dos preços do gás. “Um mês extremamente frio pode consumir muito gás”, afirma Marco Alvera, antigo CEO da operadora italiana de gasodutos Snam. Alvera afirma também que um dia frio em Fevereiro pode consumir o dobro de gás que um dia normal no mesmo mês.
No entanto, de acordo com a Maxar, uma empresa de dados dos EUA, a UE registou temperaturas de inverno 5% mais quentes do que a média histórica dos últimos 10 anos no inverno de 2022/23, e 9% mais quentes em 2023/24.
Temperaturas mais altas significam que as reservas de gás poderiam ser acumuladas, diz Alvera. Os níveis de armazenamento de gás em toda a UE já estavam acima de 60% em Abril e os analistas esperam que este ano o armazenamento subterrâneo de gás do bloco esteja 90% bem antes da chegada do inverno. “Essa é uma boa posição para entrar no verão”, diz Michael Lewis.
Em segundo lugar, a atividade econômica mais lenta na China — em parte devido aos confinamentos relacionados com a pandemia — significou que o consumo de gás natural diminuiu em 2022 pela primeira vez em mais de três décadas. As importações de LNG para o país caíram 20% em relação ao ano anterior.
As energias renováveis também tiveram um papel importante para garantir o abastecimento energético europeu. Para enfrentar os problemas causados pela ausência do gás russo, a UE acelerou a implantação de usinas solares e eólicas. Ambos os modais produziram 27% da eletricidade da UE em 2023. De acordo com o think-tank Ember, isso permitiu que a UE economizasse entre 15 e 17 bilhões de metros cúbicos (BCM) de gás. Os dados de emissões em toda a UE publicados este ano mostram que o bloco reduziu as emissões de CO2 em 15,5% em 2023.
Porém, vale ressaltar que a UE não alcançou esta relativa paz no campo energético sem sofrer impactos significativos. Os preços recorde da crise energética levaram muitas lojas e fábricas que tinham alto consumo energético a fecharem as portas.
A crise foi particularmente dura com o setor químico, cuja produção caiu 25% entre janeiro e dezembro de 2022 e teve pouca recuperação em 2023. As indústrias de ferro e aço, papel e celulose, madeira e produtos de madeira, metais não ferrosos e minerais não metálicos também sofreram pesadas perdas de produção. As informações são do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia.
“Alguns dizem que alcançamos esta redução de emissões devido à descarbonização da indústria e isso não é inteiramente verdade”, afirma Axel Eggert, diretor-geral da Eurofer, o organismo comercial da indústria siderúrgica da UE. “A principal razão para tal redução é que a economia simplesmente fabricou muito menos. A produção de aço foi 10 milhões de toneladas menor.”
Entre os países que mais sofreram com a crise energética merece destaque a Alemanha, dada a sua dependência do gás russo e a política do seu governo de fechar as usinas nucleares na sequência do desastre de Fukushima, no Japão. Porém, a alternativa aos altos preços energéticos seria o racionamento de eletricidade o que, de acordo com alguns analistas, poderia aprofundar a crise, causando inclusive apagões contínuos.
Um deles é Tom Marzec-Manser, chefe de análise de gás da ICIS. Para o pesquisador, os preços mais elevados pagos na Europa levaram os produtores de LNG a dar prioridade às entregas aos clientes europeus em detrimento aos asiáticos. “Os sinais do mercado foram fundamentais na alocação de recursos onde eram necessários”, afirmou.
Novo Cenário
Novas infraestruturas, como o terminal de Wilhelmshaven que entrou em funcionamento em dezembro de 2022, permitiram à UE tornar-se um importante importador de LNG. Em 2021, os FSRU representavam apenas cerca de 20% das importações globais de gás natural da UE e hoje representam 42%.
Quase metade do fornecimento no ano passado veio dos EUA, agora o maior exportador mundial de LNG. O bloco também adquiriu volumes significativos do Qatar, o terceiro maior exportador. Ironicamente as importações de LNG russo pela UE também aumentaram durante o período. No entanto, os estados-membros da UE estão atualmente discutindo com a Comissão Europeia sobre se, e como, o LNG russo poderá ser colocado sob sanções.
A recente dependência do LNG gera problemas potenciais para a Europa no futuro. A dependência de diferentes parceiros para o gás, expõe o bloco a um mercado altamente volátil e poderia atrasar o progresso da UE em direção a um objetivo juridicamente vinculativo de atingir emissões líquidas zero até 2050.
O custo de importação de LNG é muito superior ao do gás canalizado da Rússia, o que significa que os preços devem permanecer mais elevados. O retorno da procura por parte da Ásia também manterá os custos elevados, haja vista que a UE também irá competir com outros importadores.
O norueguês Vik acredita que o bloco enfrenta um cenário difícil pois os preços de energia estão mais elevados do que os EUA e a China, seus rivais em termos de produtos manufaturados. “Os preços da energia na Europa são bastante elevados e a energia é difícil”, diz Vik, “e não existe política energética de curto prazo capaz de alterar esse cenário. Leva-se muito tempo para construir ativos energéticos”.
Líderes da União Europeia reuniram-se em Bruxelas no início de abril para discutir o declínio da competitividade do bloco, face aos vastos regimes de subsídios na China e nos EUA, com fornecimentos seguros de “energia abundante, acessível e limpa” na lista de prioridades. Em outras palavras, os líderes europeus acreditam que uma eletricidade mais barata e descarbonizada é a chave para o retorno da competitividade europeia.
Além de tudo isso, há também a agenda verde. A Beyond Fossil Fuels descobriu que apenas 2% da frota de navios que levam gás para Europa tem uma data de aposentadoria programada. Por outro lado, há um plano da Comissão Europeia sobre como o bloco poderia alcançar uma redução de 90% das emissões até 2040 e nele é afirmado que a utilização de combustíveis fósseis deveria ser reduzida em 80% em relação a 2021. Ora, se os "petroleiros" não têm data para sair do mercado de trabalho, logo é bastante improvável que tal meta seja levada a cabo.
“Uma parte significativa da rede de petróleo e gás pode ser gradualmente reaproveitada para combustíveis sintéticos, biocombustíveis avançados e hidrogênio renovável e de baixo carbono”, afirma o documento. Porém, os engenheiros estão céticos quanto à viabilidade e ao custo da conversão de antigas centrais de gás e gasodutos em infraestrutura para combustíveis renováveis.
“Os últimos dois anos foram os mais imprevisíveis e também os mais desafiadores no que diz respeito à energia. Enfrentamos uma crise que nunca havíamos testemunhado antes.”, afirma Tinne Van der Straeten, ministra da Energia belga.
Simson reiterou os objetivos da UE de ter quase 600 GW de energia solar até 2030 e mais de 500 GW de energia eólica – uma grande aceleração em comparação com a implementada antes da crise. “A redução das emissões de gases com efeito de estufa anda de mãos dadas com a segurança energética. Putin desligou o gás. Ele não pode repetir isso com o sol.”, diz ela.
Acesso à Energia Renovável em Casa
Através da geração distribuída, muitos brasileiros podem obter descontos na conta de luz utilizando energia solar, contribuindo para um ambiente mais limpo. Deseja saber como? Entre em contato conosco pelo WhatsApp.