Porque os precos do petroleo seguem estaveis apesar da turbulencia geopolitica?
Apesar das recentes crises globais, o preço do petróleo permanece estável, uma mudança em relação à sua histórica sensibilidade a fatores geopolíticos. Descubra como a energia renovável e o gás de xisto dos EUA estão moldando essa nova realidade.
A impressão é que, desde 2020, o mundo vem enfrentando uma crise após a outra: a pandemia da COVID-19, a invasão russa à Ucrânia, turbulências no Oriente Médio – incluindo a guerra em Gaza e as tensões entre Israel e Irã – "eleições" controversas na Venezuela e a Crise no Mar Vermelho. No entanto, apesar dessas instabilidades, o preço do barril de petróleo raramente ultrapassa os 90 dólares. Por que isso acontece?
Antes de prosseguir, é importante entender que isso é uma novidade, já que o petróleo sempre foi altamente sensível a fatores geopolíticos, e a recíproca também é verdadeira. Por exemplo, a Guerra do Yom Kippur em 1973 quadruplicou o preço do "ouro negro", como relatado pelo Federal Reserve History. Em 1990, logo após a invasão do Kuwait pelo Iraque, o preço do barril aumentou em 25%.
Isso não significa que o petróleo esteja totalmente imune a tensões globais atualmente. Em abril deste ano, quando houve um confronto entre Irã e Israel, o preço do barril subiu 3% e 4%, respectivamente, mas voltou ao normal rapidamente. Contudo, os grandes choques do petróleo que víamos no passado estão praticamente extintos.
A influência das energias renováveis e do xisto dos EUA
Essa mudança se deve a dois principais fatores: o avanço das energias renováveis e a produção de gás e petróleo a partir do xisto nos EUA.
A cada dia, o mundo se torna menos dependente dos combustíveis fósseis, e há muitos exemplos dessa mudança de tendência. A geração de eletricidade via energia solar nos EUA, por exemplo, tem dobrado a cada três anos, conforme discutido em nosso artigo sobre produção de energia solar nos EUA. Além disso, a produção de eletricidade via reatores nucleares também vem crescendo, como mostrado em nosso conteúdo sobre o aumento da geração de eletricidade via reatores em 2023.
O investimento global em energia limpa está aumentando, enquanto o investimento em hidrocarbonetos diminui, como detalhado em nosso artigo sobre como o investimento em energia limpa este ano deve ser o dobro do montante destinado aos combustíveis fósseis. Na Europa, a geração de eletricidade via energia solar e eólica já ultrapassou as fontes fósseis, e no ritmo atual, os painéis fotovoltaicos deverão ser a principal tecnologia de geração de eletricidade no mundo até 2031, como discutimos no artigo Energia solar deve ser o principal modal em 2031.
Vale ressaltar que, embora a importância do petróleo esteja diminuindo, os combustíveis fósseis ainda representam 82% do mix energético global, conforme explicado em nosso artigo sobre como os combustíveis fósseis representaram 82% do mix energético global em 2023.
O papel dos EUA na estabilização do mercado de petróleo
Outro fator fundamental é o aumento da produção de petróleo e gás natural a partir do xisto nos EUA. Em 1998, a Mitchel Energy conseguiu, pela primeira vez, extrair gás natural de uma formação rochosa chamada xisto, usando a tecnologia de fraturamento hidráulico (hydraulic fracking). Pouco tempo depois, essa técnica também foi utilizada para extrair petróleo, tornando os EUA o maior produtor mundial do mineral.
O impacto foi tão significativo que os EUA passaram de importador a exportador de petróleo. A legislação americana, que proibia a exportação do material desde o choque do petróleo após a Guerra do Yom Kippur, teve que ser alterada em 2015 devido ao aumento na produção. Para se ter uma ideia, em 2008, os EUA importavam 60% mais petróleo do que exportavam; em 2019, essa balança mudou para 3% em favor da exportação.
Uma comparação interessante pode ser feita com a China, que, apesar de ser o segundo maior consumidor de petróleo do mundo, depende de importações para atender à sua demanda. No início de 2020, a China era responsável por 75% da importação petrolífera mundial, como destacado no relatório Oil Consumption by Country.
É importante destacar que os EUA ainda importam petróleo. Isso ocorre porque o petróleo extraído do xisto é de melhor qualidade (mais leve) do que o que as refinarias americanas estão habituadas a processar. Em outras palavras, nem todas as refinarias americanas foram adaptadas para processar esse tipo de petróleo mais leve.
Como mencionado por Daniel Yergin, um renomado analista do setor energético: "Há um estabilizador fundamental no preço do petróleo que não existia nas décadas anteriores — e esse é o Hemisfério Ocidental e, em particular, o petróleo de xisto dos EUA. Ele mudou o equilíbrio não apenas no mercado, mas geopoliticamente e até psicologicamente."
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